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Proud to be Mafalda

Diário de uma aspirante a jornalista em adaptação a uma nova (mas assustadora) vida...

Proud to be Mafalda

Diário de uma aspirante a jornalista em adaptação a uma nova (mas assustadora) vida...

:( R.I.P

por mafalda, em 06.05.15

Morreu Óscar Mascarenhas, aos 65 anos. Jornalista, antigo provedor do leitor no Diário de Notícias e meu professor de Ética e Deontologia do Jornalismo. Tive aula com ele ontem. E hoje, ao abrir a página online do jornal e deparar-me com esta notícia, senti pela primeira vez este arrepio (que não passa) pela morte de um desconhecido. Talvez por ter percebido, apesar do pouco tempo em que tive o prazer de o ouvir, que era um homem íntegro e que muito tinha para me ensinar. A mim e a muitos dos que se acham jornalistas. A mim e a todos os que abdicam dos seus princípios para ascender nesta vida feia. Fica um excerto do último artigo que publicou para o DN como provedor, e a minha homenagem.

«(…) Dei combate à grosseria de linguagem – até em artigos de opinião, usualmente de fora do âmbito de intervenção de um provedor – e atalhei sempre que pude contra o recurso a comentários de fontes não identificadas. Parti da minha experiência de (agora) 40 anos de jornalismo – celebro-os no dia 2 de janeiro! – e de dois princípios: o caráter aristocrático da nossa profissão e a ética.

Não entendo o jornalismo como um poder mas como um serviço. Daí ele ser aristocrata: saber que podemos muito mais do que nos permitimos, por respeito pelo público”»

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por mafalda, em 21.09.14

Fui a casa no fim-de-semana e regressei hoje no comboio. A viagem é de cerca de duas horas e há necessidade de trocar de comboio na estação de Casa Branca. Assim o fiz e reparei que, ao mesmo tempo que eu, entrou um senhor dos seus setenta e picos anos no comboio, depois de ter deixado cair o bilhete mas alguém o ter ajudado a recuperá-lo.

Sentou-se num dos bancos em frente do meu. Era um daqueles senhores a quem chamamos velhinho e não velho. Com "bom aspeto", usava um chapéu e reparei que trazia um sapato de cada qualidade, similares, de cores diferentes. Acredito, pareceu-me, que apenas se distraiu com o calçado e que não se deveu a faltas maiores. Agradeceu com simpatia ao revisor e passou grande parte da viagem a dormitar. Ouviu-se: "Dentro de momentos chegaremos à estação de Pragal. Próxima paragem: Pragal". O senhor pegou no telemóvel e, não pude deixar de ouvir, ligou para a filha. Perguntou-lhe se estava no trabalho, ao que esta respondeu que não, que era fim-de-semana. O velhote desculpou-se com o esquecimento. Perguntou-lhe então se podia passar na estação, que estava a chegar ao Pragal, para o apanhar. Ela respondeu que não, que se ele tivesse dinheiro podia ir de táxi. Ouvi-o dizer: «Então e podemos jantar todos juntos? Queria pagar-vos o jantar...» A resposta foi, com certeza, negativa, provavelmente foi acusado de ter "vindo sem avisar", pois lamentou-se: «Eu sei... Mas estava lá e pensei "Vou vê-las!"». Não adiantou e, tristemente, desligou o telemóvel. O resto da viagem fê-la cabisbaixo.

 

Não sou das melhores pessoas que há. Nem no meio da tabela me devo encaixar. Mas há coisas que, só tendo um coração muito frio, alguém consegue ignorar e eu, infelizmente, sofro muito com a desumanidade. Dói-me a fome, o frio, o desalento. Dói-me um gato a miar de fome no quintal, dói-me uma criança mal vestida, dói-me mesmo. E imaginar a solidão dos que dedicam a vida a alguém que depois não tem cinco minutos para passar na estação dói-me tanto.

Home is where your heart is

por mafalda, em 13.09.14

É a minha última noite em casa. Estou em arrumações. Vou trocar de computador com a minha mãe, porque o dela serve melhor para a faculdade. Por isso estive a passar todas as fotografias do meu portátil para uma pen. As fotografias da minha vida. Acho que escolhi mal o dia.

Abri o album do verão de 2009. Nessa altura ainda passávamos férias em Santo André. A minha irmã ainda me dava pelo peito. Tinha os dentes tortos e de monstrinho que o aparelho lhe corrigiu. Usava fitas, bandeletes e colares de missangas pirosos e enormes que sobressaíam demasiado no seu metro e trinta e nos seus ossos salientes. Vestia-se mal, mas era tão gira. Chamava-me "mana" com voz de desenho animado e andava sempre atrás de mim, ria-se tanto das minhas piadas sem graça nenhuma. Pedia para vir para a minha cama, eu deixava, mas ficávamos tão apertadas que a meio da noite alguma tinha que mudar. O meu pai pescava sete peixes numa tarde de praia, e os estrangeiros batiam-lhe palmas e aproximavam-se para os ver. Depois gozávamos os dois em português porque ele não percebia o que eles diziam e eles não percebiam o que nós dizíamos. Perto das sete a minha mãe queria ir embora porque estava frio... O meu pai vestia a camisola e cantava o refrão dos Xutos: "Eu gosto da praia à hora das gaivotas!". Ela resmungava e nós ríamos da imitação de gaivota do meu pai. 

Vou ter saudades. Eu sei que não acaba aqui, que venho nos fins-de-semana, sei disso tudo. Mas isto é o princípio do fim. A partir de agora eu venho a casa, não sou da casa. É a primeira fase da minha vida como adulta. Considero-me uma pessoa suficientemente independente, mas a verdade é que vai ser duro. O jogo de PES com o meu pai de todos os dias já não vai acontecer. Vai ser substituido por noites sozinha. Sozinha. Escrevo sozinha e forma-se um nó na minha garganta. Eles não vão estar comigo. Quando era pequena dizia-lhes que queria viver aqui em casa para sempre. Eles riam-se. E há uns meses eu ria-me. Mas agora choro. Porque eu quero mesmo viver aqui para sempre. 

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