Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Proud to be Mafalda

Diário de uma aspirante a jornalista em adaptação a uma nova (mas assustadora) vida...

Proud to be Mafalda

Diário de uma aspirante a jornalista em adaptação a uma nova (mas assustadora) vida...

-

por mafalda, em 21.09.14

Fui a casa no fim-de-semana e regressei hoje no comboio. A viagem é de cerca de duas horas e há necessidade de trocar de comboio na estação de Casa Branca. Assim o fiz e reparei que, ao mesmo tempo que eu, entrou um senhor dos seus setenta e picos anos no comboio, depois de ter deixado cair o bilhete mas alguém o ter ajudado a recuperá-lo.

Sentou-se num dos bancos em frente do meu. Era um daqueles senhores a quem chamamos velhinho e não velho. Com "bom aspeto", usava um chapéu e reparei que trazia um sapato de cada qualidade, similares, de cores diferentes. Acredito, pareceu-me, que apenas se distraiu com o calçado e que não se deveu a faltas maiores. Agradeceu com simpatia ao revisor e passou grande parte da viagem a dormitar. Ouviu-se: "Dentro de momentos chegaremos à estação de Pragal. Próxima paragem: Pragal". O senhor pegou no telemóvel e, não pude deixar de ouvir, ligou para a filha. Perguntou-lhe se estava no trabalho, ao que esta respondeu que não, que era fim-de-semana. O velhote desculpou-se com o esquecimento. Perguntou-lhe então se podia passar na estação, que estava a chegar ao Pragal, para o apanhar. Ela respondeu que não, que se ele tivesse dinheiro podia ir de táxi. Ouvi-o dizer: «Então e podemos jantar todos juntos? Queria pagar-vos o jantar...» A resposta foi, com certeza, negativa, provavelmente foi acusado de ter "vindo sem avisar", pois lamentou-se: «Eu sei... Mas estava lá e pensei "Vou vê-las!"». Não adiantou e, tristemente, desligou o telemóvel. O resto da viagem fê-la cabisbaixo.

 

Não sou das melhores pessoas que há. Nem no meio da tabela me devo encaixar. Mas há coisas que, só tendo um coração muito frio, alguém consegue ignorar e eu, infelizmente, sofro muito com a desumanidade. Dói-me a fome, o frio, o desalento. Dói-me um gato a miar de fome no quintal, dói-me uma criança mal vestida, dói-me mesmo. E imaginar a solidão dos que dedicam a vida a alguém que depois não tem cinco minutos para passar na estação dói-me tanto.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D